Flagras2026
Gaucho Trail Motor Challenge 2026: o rali de clássicos estrangeiros que atravessa o Rio Grande do Sul
42 carros de 1923 a 1980, tripulações de 16 países e cerca de 11 mil km de Montevidéu a Montevidéu, com passagem por Santa Cruz do Sul, Chapecó e Cataratas do Iguaçu
Por Pedro Ponchio · 4 de novembro de 2026 · 7 min de leitura
Na terça-feira, 3 de novembro de 2026, um comboio de carros antigos com placas de fora do país chegou a Santa Cruz do Sul, no Rio Grande do Sul, e deixou muita gente sem entender o que estava vendo. Eram Porsche 911 preparados para rali, Datsun 240Z, Ford Mustang, Mercedes-Benz, um Rover P6 e um AC Cobra, todos com número de prova nas portas e placas de Suíça, Espanha, Alemanha, Bélgica, Dinamarca, Reino Unido e Austrália. O grupo é o HERO-ERA Gaucho Trail Motor Challenge 2026, um rali de regularidade de 28 dias que cruza a América do Sul do Atlântico ao Pacífico.
O que é o Gaucho Trail Motor Challenge
O Gaucho Trail é organizado pela HERO-ERA, empresa britânica sediada em Bicester, na Inglaterra, especializada em ralis de carros históricos e responsável também pelo Peking to Paris Motor Challenge. A edição de 2026 é a primeira do evento e foi anunciada em outubro de 2024 como a sexta prova de longa distância da organização na América do Sul.
A largada aconteceu em Montevidéu, no Uruguai, em 2 de novembro de 2026, e a chegada está marcada para a mesma cidade em 28 de novembro. Pelo regulamento, são cerca de 11.000 km, com média de 400 km por dia, passando por Uruguai, Brasil, Paraguai, Argentina e Chile, com subida pela cordilheira dos Andes pelo Paso Internacional Los Libertadores. A HERO-ERA classifica o evento no nível mais duro do seu calendário, chamado de Super Endurance.
Podem participar carros fabricados até 1976, e modelos até 1985 e utilitários 4x4 entram por convite. As vagas estão esgotadas.
O nome vem da cultura gaúcha, que nos séculos 18 e 19 se espalhou por boa parte da Argentina, por todo o Uruguai e pelo Rio Grande do Sul, a terra dos peões que tocavam gado nos campos dessas regiões. O kit de imprensa da prova resume a viagem como "do Atlântico ao Pacífico" e "da caipirinha ao pisco", e lista entre as atrações as Cataratas do Iguaçu, com 275 quedas e 82 m na Garganta do Diabo, o Chaco paraguaio, a Quebrada de Humahuaca, o Cerro de los Siete Colores, em Purmamarca, e Colomé, em Salta, apresentado como o vinhedo mais alto do mundo, a 3.100 m.
Como funciona um rali de regularidade
O critério é a precisão. A organização entrega a cada tripulação um livro de rota com a média de velocidade exigida em cada trecho, e pontos de cronometragem, muitas vezes escondidos, medem se o carro passou no horário exato. Atraso e adiantamento são punidos em segundos, e vence quem soma menos penalidade. Por isso um Bentley de 1925 pode disputar a classificação com um Porsche dos anos 1970.
Além dos trechos de regularidade, o roteiro tem provas de velocidade pura, chamadas de testes, em autódromos e em trechos fechados. Os carros competem em categorias por época, com destaque para a Vintage (carros até 1947) e a Classic.
O trajeto no Brasil
A entrada no Brasil foi por Rivera, no Uruguai, cidade vizinha de Santana do Livramento. Como 2 de novembro, Dia de Finados, é feriado no Brasil, os carros passaram a noite num armazém da alfândega para inspeção e foram retirados pelas tripulações na manhã do dia 3.
No primeiro dia brasileiro, de Rivera a Santa Cruz do Sul, foram cerca de 423 km, com trecho cronometrado de 20 km em estrada de areia e terra, passagem por Santa Maria e a primeira prova de velocidade do evento, no Autódromo Internacional de Santa Cruz do Sul.
Pelo itinerário provisório divulgado pela organização, sujeito a mudanças, a sequência no país é esta:
O mapa do roteiro
O roteiro completo, dia a dia
Itinerário provisório da versão mais recente do kit de imprensa da HERO-ERA, sujeito a mudanças.
Como o roteiro mudou desde o anúncio
O primeiro kit de imprensa, divulgado no lançamento da prova em Bicester, previa seis países e incluía a Bolívia, com passagem por Mariscal Estigarribia, no Chaco paraguaio, por Tarija e por Uyuni, onde fica o Salar de Uyuni, descrito pela organização como cem vezes maior que Bonneville. Aquela versão somava 10.932 km. A versão mais recente tirou a Bolívia, levou o rali do Paraguai direto para o norte argentino e incluiu a travessia dos Andes para o Chile pelo Paso Internacional Los Libertadores, fechando em 10.821 km e cinco países.
Os carros e as tripulações
A lista oficial de inscritos tem 42 carros, fabricados entre 1923 e 1980, e tripulações de 16 países: Alemanha, Argentina, Áustria, Austrália, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, França, Geórgia, Irlanda, Itália, México, Nova Zelândia, Reino Unido e Suíça.
Os mais antigos são três Bentley de 3 e 4½ litros dos anos 1920, de 1923, 1925 e 1926. Um deles, o Bentley Speed 3/4½ de 1926, é pilotado por Tomas de Vargas Machuca, presidente da HERO-ERA.
Nove carros são anteriores a 1948. A lista oficial de inscritos vem abaixo, separada por época e ordenada pelo número de prova. Onde aparece "n/d", o número de prova não consta da classificação do dia 2.
Os carros fotografados em Santa Cruz do Sul
As fotos foram feitas em Santa Cruz do Sul no dia 3 de novembro. Cada carro foi identificado pelo número de prova e pela placa, cruzados com a lista oficial de inscritos.
O nº 41 aparece só em parte, e a identificação se apoia na placa alemã. A lista oficial registra o nº 47 como de 1980, e a carroceria tem para-choques no estilo dos 911 anteriores a 1974. O 911 dinamarquês foi fotografado por trás, sem número, e dois carros da lista têm tripulação da Dinamarca.
O Chevrolet “Fangio”
Um dos carros da lista é um Chevrolet Fangio Coupe de 1938. O nome homenageia Juan Manuel Fangio, cinco vezes campeão mundial de Fórmula 1, que antes de chegar à categoria corria provas de estrada na Argentina com Chevrolet cupê preparado. Em 1940, Fangio venceu o Gran Premio Internacional del Norte, prova de estrada entre Buenos Aires e Lima, no Peru, ao volante de um Chevrolet. Os cupês preparados nesse estilo para correr em estrada passaram a ser chamados de “Fangio”. A trajetória do piloto é contada no documentário Fangio: El hombre que domaba las máquinas (2020), disponível na Netflix.
A HERO-ERA na América do Sul
O Gaucho Trail é a sexta prova de longa distância da organização no continente, e a primeira delas largou do Brasil.
O traçado foi desenhado por Kim Bannister, que já tinha organizado provas no continente ao lado de Philip Young, nome histórico da Endurance Rally Association (ERA), e trabalha com o diretor de competição da HERO-ERA, Guy Woodcock. A organização anunciou que esperava ver Ford e Chevrolet dos anos 1930 e 1940 na lista, e o histórico explica a aposta: o Chevrolet Fangio Coupe venceu duas das cinco provas anteriores no continente.
O kit de imprensa oficial, com o itinerário e os números da prova, está disponível no site da HERO-ERA: Gaucho Trail Motor Challenge 2026, kit de imprensa (PDF, em inglês).
Classificação depois do primeiro dia no Brasil
Ao fim do dia 3 de novembro, em Santa Cruz do Sul, a classificação geral oficial, calculada pela Rallyroots, tinha:
Na categoria Vintage, a liderança era de Richard Walker e Faith Douglas, com o Chevrolet Master Deluxe Coupe de 1939, seguidos pelo Bentley 3-4½ de 1925 de Bill e Georgia Cleyndert.
No teste do Autódromo Internacional de Santa Cruz do Sul, uma volta lançada, o mais rápido foi Martin Dippie, com o Porsche 911 3.0 RS, em 2min45s, seis segundos à frente de Filip Engelen. Steve Gray, com o AC Cobra 289, ficou mais quatro segundos atrás.
Os imprevistos do caminho
O primeiro dia em solo brasileiro teve baixas. O Mercedes-Benz de Niklas e Nathalie Pohl ficou parado em Rivera com problema na junta do cabeçote. A dupla argentina Jorge e Ezequiel Perez Companc deixou o dia com problema de embreagem no Ford e voltou para a Argentina para consertar o carro, com a intenção de reencontrar o rali quando ele entrar no país. O Chevrolet Fangio Coupe teve falha na alimentação de óleo, foi consertado na estrada e perdeu o primeiro trecho cronometrado. O Mercedes-Benz 280 SLC de Simon Bonham e Pete Emms terminou o teste no autódromo no embalo, com problema na articulação do acelerador.
Por que tantos carros com placa estrangeira
As tripulações vêm de fora do Brasil, e os carros rodam com placas emitidas no exterior. Eles entraram no país pela fronteira de Rivera e Santana do Livramento e deixam o Brasil em direção ao Paraguai pelo itinerário da prova.
Fontes: HERO-ERA (página oficial do evento, lista de inscritos, relatos diários de Syd Stelvio e classificação oficial do dia 2, calculada pela Rallyroots) e as duas versões do kit de imprensa do Gaucho Trail Motor Challenge 2026. Fotos: @jose.a.aquino e @isaacjwm, via @g10_spotts. Mapa do roteiro: HERO-ERA.
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Fonte primária e apuração: Exotics Brazil (@exoticsbrazil) · exoticsbrazil.com.br
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